23 de março de 1984.
Na madrugada, a corneta tocou alvorada. Ouvi desde a primeira
nota. Havia acordado 20 minutos antes no alojamento principal para cadetes da
Academia de Polícia Militar. As camas, quarenta no mesmo ambiente, estavam
sendo arrumadas quase todas ao mesmo tempo. Os alunos mais velhos gritavam.
Diziam que gostariam de ver quantos desistiriam do curso até o final do dia.
Vesti o uniforme de campanha verde-amarelado. Calcei o coturno
marrom café. Carreguei a mochila com alimentos. Enchi e ajustei o cantil no
cinturão. Coloquei o capacete de plástico e, por cima dele, o capacete de aço,
que pesava quase meio quilo. Depois segui para a intendência, para apanhar meu
fuzil.
Estávamos perfilados no pátio às 5 da manhã. Entramos em
caminhões e ônibus e começamos a jornada até as proximidades do campo de
treinamento de Ribeirão das Neves. Desembarcamos a cerca de 15
quilômetros de distância do destino e começou a marcha.
Eu completaria dezessete anos em pouco menos de um mês, e,
naquele momento, tudo era uma experiência nova. A marcha em si não era muito
exaustiva. A inexperiência, contudo, fez com que as laranjas dentro da mochila
ficassem cada vez mais pesadas. Em certo ponto do percurso, ouvimos tiros: era
um "alarme". Fomos instruídos a sair da estrada e esconder-nos, deitados, no
mato. Passados alguns minutos, retomávamos a marcha. Dado momento, após uns três
alarmes, dei-me conta que estava sem cinturão e, consequentemente, sem cantil.
Já imaginando que tipo de punição isso acarretaria, avisei o aluno do último
ano, encarregado da turma de iniciantes, desse fato. Recebi a ordem de voltar
para buscá-lo e alcançar a tropa. Um colega foi escalado para me acompanhar.
Voltamos correndo. Capacete de aço pulando sobre a cabeça, até
o ponto do último alarme. Localizei logo o cinto com o cantil. Alcançamos a
tropa, ainda correndo, exaustos. O peso das laranjas sentido cada vez mais.
Chegamos ao centro de treinamento por volta de dez horas da
manhã. Começaram então os exercícios: maneabilidade. Só então fui perceber que
era pura ralação: rastejar, rolar, andar agachado, correr, além da pressão de
que aqueles que não conseguissem realizar o exercício ficariam detidos no
quartel. Pouco antes do almoço chegamos aos poços de lama. Então se havia o
cansaço, pelo menos nos refrescávamos. O estresse era tanto que as aranhas
caranguejeiras que estavam próximas aos poços não eram sequer notadas. Tudo que
importava era cumprir o que era determinado: rastejar, rolar, deitar naquele
barro amarelo.

Por fim chegou a hora do almoço. Duas horas de intervalo. Nunca havia comido
antes daquele jeito, com tanto apetite, não importava que comida houvesse. Após
o almoço, finalmente, as laranjas, cúmplices do meu cansaço. À tarde voltamos à
mesma rotina: correr, rolar, rastejar. No meio da tarde meu corpo estava repleto
de cãibras. Não desisti. Não pedi atendimento médico. Continuei até o fim da
jornada. Até o fim do curso.

A turma completa:
